Orgasmo feminino continua sendo ignorado, e o prazer segue como privilégio do homem

By 9 de agosto de 2017Intimidade

O silêncio que ronda os caminhos do prazer e do reconhecimento do corpo da mulher ainda causa incômodo. O pouco que se fala sobre o assunto não raro se restringe apenas ao tradicional “como agradar o seu parceiro na cama”. Para essa mulheres, o sexo perdeu o desejo e se tornou mais uma entre as tantas obrigações do matrimônio.

orgasmo mulher sexo prazer 0317 400x800

Muitas mulheres não sentem prazer ao fazer sexo. E, ao contrário do que se poderia supor diante de tamanha publicização do erotismo feminino, elas não são poucas. De acordo com uma pesquisa realizada pelo Projeto de Sexualidade da Universidade de São Paulo (Prosex), na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), metade das brasileiras não tem orgasmo nas relações sexuais.

O desconhecimento é tamanho que, para muitas mulheres, o orgasmo feminino se tornou mito. Sem nunca terem sentido prazer, elas fingem chegar ao clímax, seja por medo de frustrar o parceiro e serem taxadas de frívolas, ou porque acreditam que este clímax nunca chegará. Em busca de aceitação, elas abrem mão do próprio desejo sem perceber.

orgasmo sexo prazer 0817 400x800 0

Como a cultura interfere no prazer feminino

O problema é cultural. “Somos fruto de uma cultura judaico-cristã onde a mulher foi criada para conceber, e não para sentir prazer”, explica a psicanalista e sexóloga Lelah Monteiro.

O mesmo estudo da Prosex, que ouviu ao menos 3 mil brasileiras com idades entre 18 e 70 anos, apontou que 55,6% têm dificuldade para chegar ao orgasmo. Entre as várias causas apontadas, 67% responderam que têm dificuldade para se excitar e 59,7% sentem dor na relação.

Paradoxo

O receio em se aventurar em práticas sexuais que explorem ao máximo o prazer parte, sobretudo, do medo de ter a imagem moral abalada. O sexo e o corpo feminino, ainda que sejam explorados ao máximo em propagandas, não têm nas mulheres seu público-alvo.

“O sexo é visto como algo sujo porque tem gemidos, posições e prazer. Ainda existe aquela velha – e lamentável – história de ‘mulher para se casar’ e ‘mulher boa de cama’, que por muitos anos vem arraigada,” comenta a psicanalista e sexóloga.

O paradoxo está presente no imaginário feminino: se por um lado a mulher desejável é retratada como provocante e hipersexualizada, por outro, a educação e cultura lhes diz que é feio sentar de perna aberta, que é vulgar mostrar o corpo e que a mulher “de respeito” transa só por amor – e não por prazer.

No final, elas não podem gostar de sexo, senão não serão respeitadas, mas precisam atender às expectativas sexuais do homem, senão não serão desejadas e ainda correm o risco de ser trocadas por outra que dê conta do recado. O resultado disso é uma mulher que sente, ao mesmo tempo, vergonha de fazer sexo e culpa por não fazer sexo.

orgasmo sexo prazer 0817 400x800

Prazer como ferramenta de dominação

Falta de informação sobre o próprio corpo e formas de alcançar o prazer individual são formas de controle sobre os desejos da mulher. Ao impor uma norma comportamental recatada às mulheres, é mais fácil subjugar seus desejos e impor práticas e parceiros sexuais.

Uma vez que a mulher acredita que ela não sente prazer no sexo, ela não se sente atraída a buscar descobrir novas práticas sexuais ou mesmo escolher seus parceiros. Não por acaso, a mulher que tem mais companheiros sexual ao longo da vida demonstra mais satisfação na transa e maior chance de atingir o orgasmo, segundo estudo da Universidade de Albany, nos Estados Unidos.

“Eu ainda atendo muitas mulheres jovens que acham que é perda de tempo se tocar”, conta Monteiro. “Há pessoas que acham comum não ter prazer, não ter orgasmo, não ter excitação. Como que as mulheres querem alcançar o empoderamento feminino se elas acham que o prazer delas não é importante?”, questiona.

mulher orgasmo prazer 0117 400x800

Bloqueios mentais

Segundo a fisioterapeuta sexual Débora Pádua, as causas biológicas são responsáveis por menos de 5% da incidência do problema. Lesões neurológicas, esclerose múltipla, mielites, lesões na medula óssea, alterações no sistema nervoso periférico e má formação congênita que dificulta o acesso ao clitóris estão neste grupo.

Já os fatores psicossociais são os mais comuns e envolvem falta de informação, tabus, educação sexual moralista, medo de engravidar, sensação de culpa, dificuldade em assumir o papel erótico, histórico de abusos ou dores e até falta de habilidade do parceiro.

“Ouso dizer que quase todas as religiões mais conservadoras encaram a masturbação como uma culpa, como um pecado. E as mulheres, mesmo dizendo que não têm mais religião, que são independentes economicamente, acham que é uma bobagem ficar se tocando”, afirma Monteiro.

sexo mulher prazer 0817 400x800

Além da influência ainda muito presente da religião nas morais da sociedade, é interessante notar a interferência da mídia. Nos filmes de besteirol americano, por exemplo, é comum haver ao menos uma cena de masturbação masculina, mostrada como algo natural; quando a mulher aparece se tocando, no entanto, geralmente há um contexto de excitação do homem.

Filmes, novelas, seriados e até músicas também reforçam o estereótipo do homem sempre mais interessado em sexo do que a mulher – noção tão intrínseca em nosso imaginário que até serve para justificar casos de abusos e estupros.

Até mesmo as empresas de preservativos se voltam mais a eles, comercializando uma variedade muito maior de camisinhas masculinas do que femininas – ainda que a responsabilidade sobre a prevenção da gravidez recaia majoritariamente sobre a mulher.

Questões físicas influenciadas pela cultura

Excitação e toque do corpo

Há outro fator a ser considerado: a diferença na excitação feminina e masculina. De acordo com Débora, a maioria das mulheres precisa de cerca de 20 minutos de “aquecimento” antes que seus órgãos genitais sejam tocados e, para atingir o orgasmo, seriam necessários entre 10 e 45 minutos de estimulação do clitóris. Isso significa que, além de disposição e autoconhecimento da própria mulher, é necessária consciência por parte do parceiro ou parceira.

Um dado interessante acerca deste assunto é a disparidade entre o índice de mulheres hétero e homossexuais que chegam ao orgasmo. Segundo o Instituto Kinsey, dos Estados Unidos, 75% das lésbicas atingem o clímax, versus 62% das que se relacionam exclusivamente com o sexo oposto.

“Enquanto as hétero estão preocupadas com o pênis, mulher com mulher está preocupada com o seu grande órgão, que é o clitóris”, comenta Monteiro, destacando que, em uma relação heterossexual, o prazer dele se sobressai ao dela.

pilula anticoncepcional hormonio 0717 400x800

Anticoncepcional atrapalha o prazer?

Além da dinâmica sexual, a questão hormonal também é responsável por diminuir a libido feminina e a lubrificação natural. Para Monteiro, embora os laboratórios farmacêuticos neguem, o uso contínuo de anticoncepcionais orais ou injetáveis causam essa resposta medicamentosa.

“Anticoncepcional faz com que o ciclo fique completamente modificado, é como que se a mulher não ovulasse mais. Quando a pessoa está limpa de qualquer remédio, ela percebe o corpo diferente”, comenta.

Aqui entra outra interferência sociocultural que prejudica o prazer da mulher: a responsabilidade pela prevenção da gravidez e o descaso com os efeitos colaterais deste método tão difundido, que, apesar de seus muitos benefícios, atrapalha a qualidade do sexo delas.

Vale lembrar o caso do anticoncepcional masculino, cujos testes foram interrompidos por causarem efeitos adversos prejudiciais aos homens – que acabaram se mostrando os mesmos daqueles sentidos pelas mulheres que tomam pílula.

Assédio
Next Post

Leave a Reply

Secured By miniOrange